Os Incompreendidos

Oh, I lie now and then, I suppose. Sometimes I'd tell them the truth and they still wouldn't believe me, so I prefer to lie. 

Um marco da Nova Onda, primeiro longa-metragem de François Truffaut e capítulo um das aventuras de Antoine Doinel – são vários os motivos pelos quais Os Incompreendidos é hoje considerado um clássico. Nenhum porém tão apropriado quanto o fator subjetivo – o eco da etérea viagem por imagem e música contemplando a infância que é Les Quatre Cents Coups. Tão indescritível experiência de se contemplar quanto é de racionalizar, a obra de Truffaut é um misto de sensações reconhecidas e situações inusitadas. Tudo expressamente capturado por uma belíssima fotografia em preto e branco e movimentado pela trilha sonora onipresente de Jean Constantin.

De 1959, o filme retrata a primeira fase da vida de Antoine Doinel – ainda existem quatro outras em obras que se seguiram. Interpretado de forma única por Jean-Pierre Léaud (que permaneceria nas sequências), Doinel é um garoto típico. É rebelde, arteiro, odeia estudar e busca o reconhecimento dos pais à mesma medida que reluta com as inconsistências deles. Infelizmente, porém, parece estar sempre sob o olho do furacão e, portanto, apesar de não ser muito diferente de seus colegas de classe, acaba sempre levando a culpa por tudo. Neste caos, Doinel decide fugir de casa, despertando uma série de acontecimentos que servirão para moldá-lo irreversívelmente. É o destino final, porém, que deixará a maior impressão.

Filmado com um olhar especial para planos e escrito despretensiosamente, o filme de Truffaut é tão charmoso quanto denso. Inocentemente engraçado em um segundo para, em seguida, nos hipnotizar em alguma viagem visual/sonora ou mesmo nocautear com planos e olhares épicos em significância. À primeira vista a jornada de Doinel pode parecer ordinária ou mesmo simplória. Um olhar mais sensível e apropriadamente subjetivo extrairá as nuances existentes na obra. Da lírica passagem pela cidade dentro de um camburão da polícia à fuga final filmada em plano-sequência extraordinário.

Há todo um tom caprichoso cercando a obra e a maneira com que a narrativa se desenrola. O relacionamento de Doinel com seus pais e com a escola é genuíno – a repreensão, a reclusão e o posterior desprendimento. A fuga rotineira nas ruas da cidade e nas salas de cinema e as escolhas erradas quando se vê forçado a renegar os pais e viver independentemente. Os diálogos são sempre absurdamente sinceros e realistas, a edição bem pontuada e as atuações, incrívelmente naturais. Assim, Os Incompreendidos desperta diversas temáticas e cria um painel estrondoso no que concerne seu alcance emocional.

É parte auto-biografia do próprio Truffaut, parte homenagem à André Bazin e parte exposição da adolescência problemática (e incompreendida) da França na época. No fundo, porém, é muito mais do que isso. É mais do que Truffaut, Doinel e dos garotos que – na tradução do título original – querem ver o circo pegar fogo. É a angústia de gerações, o olhar momentâneo da perdição infinita. É a vida resumida em um único espaço temporal e sensorial, exposta pelo olhar inocente de um garoto tão ingênuo que, no final das contas, foi traído pelas ambições. Todos já fomos Antoine Doinel. E ainda contemplamos a infinitude com o mesmo peso e pesar. Ainda somos os incompreendidos.


Les quatre cents coups (1959) | Direção: François Truffaut; Roteiro: François Truffaut, Marcel Moussy; Elenco: Jean-Pierre Léaud, Claire Maurier, Albert Rémy, Guy Decomble, Georges Flamant 

6 comentários:

Kamila disse...

Conheço tão pouco do François Truffaut.....

Mayara Bastos disse...

Não lembro muito desse filme, preciso revê-lo...

Thiago Priess Valiati disse...

Parabéns pelo blog! Adorei! Você domina muito bem o assunto!
Se puder dar uma olhada no meu (http://this-is-cult-fiction.blogspot.com/) ficaria muito agradecido! Comecei ele estes dias!
Ah, adicionei o seu na minha lista de blogs!
Abraços!

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Bacana o seu blog.
Cumprimentos cinéfilos!

O Falcão Maltês

Pedro Henrique Gomes disse...

"O prazer dos olhos", não é mesmo?

David C. disse...

Maravillosa película de Francois Truffaut.

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